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A Ditadura da Sociedade

Talvez esse post devesse sair numa quinta-feira, já que o recebi como relato. Porém, ele se encaixa mais como uma espécie de um protesto. Uma visão apurada de uma mãe solteira que, assim como eu, sente que a sociedade ainda não está preparada para os novos modelos de "família feliz".

Hoje o texto é da Lu, que faz parte do Grupo Gente Miúda.

Texto muitíssimo bem escrito e que abre uma discussão sobre o que a sociedade pensa a respeito disso. Vale muito apena ler.







"Minha gravidez não foi planejada. Passados alguns meses depois do nascimento, o meu namoro com o pai do meu filho não deu certo, e desde então eu crio meu filho sozinha.

Detalhes da minha vida pessoal à parte, deparei-me com uma triste realidade: a sociedade ainda cultiva os velhos estereótipos.

Vivemos na era da comunicação em rede, em que temos acesso rápido e fácil à diversidade cultural. Sabemos dos avanços da medicina capazes de solucionar os mais difíceis problemas de fertilização, inclusive permitindo que mulheres se tornem mães, independentemente de sucesso matrimonial. Essas, aliás, podem, ainda, acolherem uma criança já nascida e, de acordo com a lei, tornarem-se mães, por direito e por afeto.  Ainda, conhecemos a evolução dos direitos dos homossexuais que garantiram sua união civil e obtiveram, em dezenas de casos, decisão favorável ao reconhecimento de filhos, nos casos de adoção.

Apesar da multiplicidade de conjugações familiares possíveis – nossa sociedade nunca esteve tão diversificada nesse ponto – ainda me defronto, nos mais variados ambientes, com jurássicas expectativas de um modelo de família estigmatizado nos comerciais de margarina: Pai, Mãe e Filhos – dois, se possível, porque três é demais e um, ah!, é muito ruim ser filho único; ainda se possível, para ser mais do que perfeito, que os dois sejam um casal: o menino,  mais velho e viril, a menina,  miúda e doce – todos convivendo harmoniosamente e felizes (para sempre!?).

Não questiono a possibilidade de existirem – de verdade – famílias assim. Aliás, torço por isso e conheço alguns poucos exemplos (sim, eu conheço) de casais que têm dado certo. Nada melhor, mais fácil e mais tranquilo – para todos! - que um pai e uma mãe, comungando dos mesmos valores, criando os filhos em comunhão de carinho, ideias e cooperação. Porém, pelos mais diversos motivos, nem todas as pessoas conseguem encaixar-se nesse padrão. E o meu questionamento é: Por que é tão difícil aceitar o “diferente” como algo também bom? E eu continuo indagando: Por que o “diferente” atrai olhares – e, vejam, isso é um paradoxo – de indiferença ou, pior, de menos-valia? Por que não ser igual à maioria é ser pior ?

Quisera eu ter todas as respostas.

Porém, descobri um caminho para entendê-las: o diferente incomoda por sua autenticidade. Somente assume suas excentricidades quem está convicto delas. Pergunte a cada uma das pessoas que formam famílias “não convencionais” o que as afastaram das convenções. Todas, eu garanto, darão um testemunho de acontecimentos tumultuados, sim, mas enfrentados com firmeza, dignidade e força por descobrirem que entre o padrão falacioso e o incomum nutrido de valores genuínos, mais vale o segundo.

Por covardia, mulheres mantêm-se em relacionamentos falidos, em que já não mais existe amor, nem respeito. Por fraqueza, homens cultivam casamentos fracassados, por não assumirem sua real identidade sexual. Por comodismo, homens e mulheres vendem-se ao conceito comercial de família, a fim de preservarem a imagem do porta-retrato na sala de estar.

Repito, para ficar bem claro, não estou a afirmar que todo padrão é mentiroso. Não, de maneira alguma. Existem sim famílias bem constituídas (eu já disse isso acima), mas cuja união prevalece por conta de suas verdadeiras vontades. A aparência, nesses casos, é apenas o exterior daquilo que realmente se vivencia no íntimo. Contudo, obviamente, não são desses que se originam os julgamentos desagradáveis. Esses, aliás, não se importam com isso, já que estão vivendo suas vidas em plenitude. O preconceito vem justamente daqueles que se apegam nos estereótipos para se manterem firmes. Para esses, a “diferença”, por representar a nossa ousada coragem de expor a nossa verdade, os agride. Quem encontra a sua verdade, defronta-se com sua mais profunda essência, de forma que tudo que é superficial deixa de ter valor, perde a graça, desencanta.

Só vive na superfície quem não tem coragem de mergulhar. Eu tive. Mergulhei no turbilhão da vida e afirmo: é mais fácil se afogar na beirada, por acreditar-se seguro, do que no fundo, por saber-se frágil.

Eu descobri minha essência. Por via transversa, talvez, mas fiz dos desalinhos um caminho para a descoberta mais importante da minha vida: eu sou Mãe.

Não me importo mais com expressões de falsa piedade. Não me incomodo em esclarecer minhas escolhas e receber questionamentos preconceituosos. Tampouco têm importância aqueles que se afastarem de mim, em razão dessa realidade. 

Mãe (de verdade!) se reconhece de longe. Mãe casada, Mãe solteira, Mãe sozinha, Mãe adotiva, Mãe... Erra quem pensa existirem vários “tipos” de Mãe. Ou se é Mãe, ou se não é. Apenas considero quem me reconhece como Mãe. Ponto. Sem qualificações. Qualquer adjetivação seria superficial.

Desisti de esperar a evolução da sociedade. Conformei-me em aceitar que o mundo nunca será como a gente idealiza. No fundo, agradeço as vicissitudes da vida que me fizeram ser essa Mãe, essa aqui que vos escreve, assim bem desse jeitinho. A Mãe que eu desejo para o meu filho – esteja dentro do padrão ou fora dele."

E agora me digam, o que vocês pensam sobre essa visão da sociedade?

Beijo,
Bru.

9 comentários:

  1. Parabéns Bruna, o texto está incrível, realmente muito bem escrito! E concordo plena e absolutamente com tudo, tudinho!!! Sabemos porque! Mas o importante é tentar acertar, infelizmente ganhamos títulos ao longo da vida, a magrinha, a gordinha, a baixinha, a mãe solteira, a separada etc. Mas a gente sobrevive neste mundo que a tecnologia cresce, mas as PESSOAS NÃO! mil beijos to ficando fã, adoro ler teu blog. Fica com Deus!

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  2. Texto de grande sabedoria Lu, parabéns por perceber exatamente como é a nossa sociedade atual, se dizem tão liberais frente ao mundo dos nossos avós e pais, porém, agridem homossexuais nas ruas; se dizem tão avançados frente à tecnologia porém, sentem preconceitos quando pais querem salvar seus filhos com problemas de saúde, escolhendo embriões em laboratório para que eles possam salvar a vida dos que aqui estão.

    Infelizmente vivemos em um mundo de contradições, que o que prevalece mesmo não são as transformações e evoluções do mundo em que vivemos e sim o que prevalece insistentemente é o mundo individual de cada um, sem pensar no proximo com uma visão mais humana e compreensiva!

    Acredito que todos querem uma família com pai, mãe e filho (s) porém as vezes não é opção nossa, o destino nos guia, e ele pode nos apresentar coisas diferentes das quais idealizamos um dia, e é assim a graça da vida, frente aos obstáculos conseguirmos nos reerguer e transformar nosso dia a dia numa linda história!

    Beijos meninas

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  3. Bru e Lu, parabéns pelo texto, realmente quem é mãe solteira desde a gravidez já enfrenta preconceito e depois que nasce é pior ainda.
    infelizmente nossa sociedade é super preconceituosa, principalmente das mães com "marido", essas são as piores.

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  4. Amei o post!!! Eu tbm sofro certo tipo de preconceito por ter me casado com um homem bem mais velho que eu, mas no fundo do meu coração nunca sofri por isso, eu percebia os olhares diferentes, mas isso nunca me incomodou de verdade. Simplesmente por tbm não esperar que a sociedade seja esclareceida, ou adepta às famílias modernas, daquelas beeeemmm diferentes do comercial de margarina.

    E hj em dia eu penso que se um dia tivesse me importado com essa sociedade hipócrita e preconceituosa eu não estaria casado com um homem maravilhoso e constituido uma linda família, não é mesmo?

    Bjus meninas,

    Ju

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  5. Excelente blog! Só a título de curiosidade há um agregador de conteúdos chamado Agrega Pais, que é voltado para pais e mães (mas é tão versátil que acaba tendo audiência da família toda, pois, vai dos blogs de mães até blogs geeks ou sobre mma) uma ótima forma de divulgar seu blog para um público bem específico no geral e que está adentrando a internet e uma ótima forma de virar referência para este público.
    http://agregapais.com.br/

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  6. Especialmente lindo e verdadeiro, Lu. Garanto que foi a voz de muitas mães... não só as solteiras, mas de todas que em muitas vezes são criticadas. Somos iniciantes numa nova tarefa de vida... tarefa que sim nos preparamos durante a gravidez, mas que somente após o nascimento é que nos deparamos com toda a realidade. Sendo assim que direito tem as pessoas de nos criticar... e sim concordo com vc que as pessoas que mais criticam são as que estão fora desse contexto ou as que se forçam num contexto que não é o satisfatório a elas.
    Comigo por exemplo foram críticas por escolher a cesárea... geralmente de quem nunca teve filho, ou de quem fez cesárea. Agora qdo me deparei com o fato de não produzir leite materno suficiente pra filhota... mais uma avalanche de narizes torcidos como se fosse algo que eu estivesse escolhendo... uma criminosa!

    Admiro muito cada uma de nós... desse grupo GM unido pela Bru e espalhado por nós. Somos as leoas de nossos bebês.. e tudo por eles!

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  7. Concordo absolutamente com esse relato, me casei dois meses depois de ter tido meu filho, me separei e desde então o crio sozinha, já que o pai dele mora na Bahia, ele paga a pensão porque é obrigado, mais acho um preconceito, quando me perguntam do pai e eu digo que não sou casada me olham com um jeito diferente, com dó, como se isso acarretasse um problema entre mim e o meu filho.
    Independente de como a família é construida o que importa é o amor!

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  8. Participamos de uma sociedade muito hipocrita,machista(sim),preconceituosissima por sinal!Egoistas!
    Nao existem pessoas perfeitas no nosso mundo e nunca existirao!entao por que criticar isso ou aquilo que as pessoas fazem ou deixam de fazer,como as pessoas vivem?cada um sabe de si!Existe um padrao de familia sim,mas nao se pode querer segui-lo a qualquer custo.
    Nao sou mae solteira.Mas sofro grande preconceito apenas por ser mae de 4 crianças,acredita?
    Estamos vivendo o "cada um por si e Deus por todos"!

    Vejo que o preconceito neste Brasil tao liberal é moda!

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  9. Tem mesmo! Cuidaria do meu filho sem pai numa boa e não tenho nada contra,somos muitos capazes e até melhores,claro que um pai é sempre bom ter + nem sempre é assim e a vida continua!

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Fico muito feliz com seu comentário! :)